quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

A fotografia de Érico Hiller


Eu sempre me perco entre as estações de trens. Não é que eu não saiba por onde ir, meu problema é ler enquanto estou indo para algum lugar. Algumas vezes não percebo que minha estação chegou, então passou. Outras, acredito que não valha a pena parar a leitura por algum compromisso, passou de novo.

Ontem estava lendo e comparando Memórias Póstumas com o roteiro do filme lançado em 2001. Entertido que estava, fui parar na Santa Cecília. Mas devo dizer que valeu a pena. Desci do trem, subi as escadas e me deparei com rinocerontes! - o mais engraçado é que me lembrei do momento em que Brás Cubas fala de sua alucinação, no caso com um hipopótamo, mas fico a imaginar se não seria mais emocionante viajar no torso de um rinoceronte. Mas deixemos os devaneios de lado.

Sempre gostei de fotografia. Lembro de quando, ainda pequeno, vi aquela fotografia de um homem em frente a tanques de guerra. A fotografia de Jeff Widrner, conhecida como Massacre da Praça da Paz Celestial, tirada durante uma revolta estudantil na China de 1989, se olhada com mais atenção, é como se tivesse vida. Você escuta o som dos tanques, sente a tensão do estudante. Observe o mundo segurando o fôlego.

Encontrei isso na fotografia de Érico Hiller, que está em exposição na estação. A foto em que o rinoceronte tem seu chifre cortado e o sangue escorre pelas bordas. A luta dos guardas florestais e do povo que buscam acabar com a venda ilegal do material extraído dos chifres. É uma briga difícil, até mesmo injusta, como sempre é para aqueles que buscam preservar algo do que nos foi dado pela natureza. 

É interessante o modo como Hiller faz algo tão preocupante se tornar belo. E é através dessa beleza de suas fotografias que nos é chamada a atenção para coisas que acontecem tão distante de nós. A Jornada do Rinoceronte é uma excelente coleção de imagens, que através de um espaço público nos confronta, pois essa não é a única coisa do tipo que vem acontecendo no mundo, no Brasil que o diga.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Pai, mãe

Quando eu nasci ela tinha 20 e ele 26. Dois meses na incubadora e eles envelheceram mais uns 6. Então, já me vejo com dez anos, meus fragmentos de memória se perderam quando fui de encontro da escada para o chão. Com 11 anos era bolinha de gude e pião, futebol de rua descalço. Com ele, sempre podia ir pra rua antes do almoço. Com ela, só depois da cozinha arrumada. Com ele visita a casa dos avós, figurinha e histórias em quadrinhos. Com ela, finais de semana no shopping e desenho no cinema.

Hoje, vejo que até tive sorte, e sinto falta. Não atribuo a culpa a ninguém, muito menos a mim que sou tão frágil quanto qualquer outro. Talvez a culpa seja do mundo inteiro, por ter deixado tudo isso acontecer. Ou talvez o mundo estava tão ocupado e nem sabe de nada que aconteceu.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Eu sei que a gente se acostuma | Marina Colasanti


"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.  E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. 

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.  Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos,  para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

terça-feira, 13 de junho de 2017

A solidão e a saudade

Uns dias atrás fiz um dobradinha mineira. Li muito sobre o longa O Homem das Multidões (Cao Guimarães e Marcelo Gomes, 2014) em seu lançamento e desde então quis assistir ao filme, porém não tive a oportunidade. Enquanto esperava o começo do filme, assisti outro longa mineiro, Depois Daquele Baile (2006), que estreia o diretor Roberto Bomtempo e traz um elenco de peso.

A saudade

Marcos Caruso, Irene Ravache e Lima Duarte

Um elenco forte (como pode ser visto na imagem acima) e uma história simples, desde que bem amarrada, é o que dá aquela sensação de tempo bem aproveitado em um final de domingo. É isso que o diretor Roberto Bomtempo nos entrega em Depois Daquele Baile.

Com brilhantes atuações de Marcos Caruso, Irene Ravache e Lima Duarte, a história nos mostra um triangulo amoroso entre amigos. Esse relacionamento traz nostalgia a alguns personagens e vemos concepções diferentes do passado de cada um, enquanto Caruso sente falta do que passou, Lima Duarte tenta esquecer e fica desconcertado sempre que o assunto entra em destaque. Já Ravache (que atuação!) está feliz com seu presente e mesmo achando o passado essencial para sermos quem somos, vive um dia de cada vez, sem pensar muito no amanhã.

Embora simples, o filme traz boas surpresas que nos deixam mais envolvidos com os personagens. Em alguns momentos procurei o motivo do título, até achei que ele apareceria mais para frente e é isso mesmo, mas sempre, como garante Caruso, remetendo o passado.

A solidão

Juvenal, interpretado por Paulo André

Já em O Homem das Multidões não vemos nem futuro, nem passado, só uma solidão aterradora apresentada em um formato angustiante. Juvenal, interpretado por Paulo André, é um maquinista que, mesmo cercado por muitas pessoas nas plataformas de Belo Horizonte, é dominado pela solidão, mas não é o único a viver isso no filme, Margô, controladora de uma das estações, também toma suas doses desse sentimento.

É intrigante a forma como o filme ocorre, seu formato (como se fosse um tela de celular) nos deixa ainda mais próximos dos personagens e isso nos transmite ainda mais seus sentimentos, até o momento que pensamos em como conseguem viver assim e procuramos, como se fosse com um amigo próximo, uma solução para esse problema.

Cao Guimarães e Marcelo Gomes podem ter a certeza que têm em suas filmografias um excelente trabalho, não que eu seja um especialista no assunto, mas qualquer um que entenda o minimo de cinema e deixe de lado esse preconceito bobo com produções nacionais, que infelizmente muitos carregam, saberá que está diante de uma grande obra, simples e econômica, mas rica em toda a confusão e solidão que deseja transmitir.






terça-feira, 7 de março de 2017

Adélio, o neto de cafezeiro

Adélio Antônio da Silva

“Neto de cafezeiro não nega café.” Foi afirmando isso que o senhor Adélio Antônio da Silva, entre uma xícara e outra, me recebeu em sua casa e contou sua história.

Tendo cursado física e matemática no McKenzie, pretendia entrar na Aeronáutica Brasileira para cumprir seu tempo de alistamento e aprender como funcionavam alguns mecanismos, assim, também seguiria os passos de seu tio, que servira alguns anos antes. “Só que meu pai disse que se eu servisse o exército, ele me ajudaria”, isso porque em 1963 o salário de um militar era baixo, “Hoje o exército ainda paga um pouco mais, quem melhorou isso foi o Castelo Branco”, afirmou Adélio.


A intervenção de seu pai fez com que ele desistisse da Aeronáutica e ingressasse no Exército, o que seria bem mais difícil se a dona Maria, moradora do bairro Vila Formosa – onde Adélio mora até hoje – não o tivesse incentivado. Mal sabia que uma ação a contra gosto lhe renderia tantas histórias para contar, algumas delas cômicas, outras bem dramáticas, mas todas relatadas entre boas xícaras de café.