Quando eu nasci ela tinha 20 e ele 26. Dois meses na incubadora e eles envelheceram mais uns 6. Então, já me vejo com dez anos, meus fragmentos de memória se perderam quando fui de encontro da escada para o chão. Com 11 anos era bolinha de gude e pião, futebol de rua descalço. Com ele, sempre podia ir pra rua antes do almoço. Com ela, só depois da cozinha arrumada. Com ele visita a casa dos avós, figurinha e histórias em quadrinhos. Com ela, finais de semana no shopping e desenho no cinema.
Hoje, vejo que até tive sorte, e sinto falta. Não atribuo a culpa a ninguém, muito menos a mim que sou tão frágil quanto qualquer outro. Talvez a culpa seja do mundo inteiro, por ter deixado tudo isso acontecer. Ou talvez o mundo estava tão ocupado e nem sabe de nada que aconteceu.
segunda-feira, 11 de março de 2019
domingo, 24 de fevereiro de 2019
Eu sei que a gente se acostuma | Marina Colasanti
"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."
terça-feira, 13 de junho de 2017
A solidão e a saudade
Uns dias atrás fiz um dobradinha mineira. Li muito sobre o longa O Homem das Multidões (Cao Guimarães e Marcelo Gomes, 2014) em seu lançamento e desde então quis assistir ao filme, porém não tive a oportunidade. Enquanto esperava o começo do filme, assisti outro longa mineiro, Depois Daquele Baile (2006), que estreia o diretor Roberto Bomtempo e traz um elenco de peso.
A saudade
Um elenco forte (como pode ser visto na imagem acima) e uma história simples, desde que bem amarrada, é o que dá aquela sensação de tempo bem aproveitado em um final de domingo. É isso que o diretor Roberto Bomtempo nos entrega em Depois Daquele Baile.
Com brilhantes atuações de Marcos Caruso, Irene Ravache e Lima Duarte, a história nos mostra um triangulo amoroso entre amigos. Esse relacionamento traz nostalgia a alguns personagens e vemos concepções diferentes do passado de cada um, enquanto Caruso sente falta do que passou, Lima Duarte tenta esquecer e fica desconcertado sempre que o assunto entra em destaque. Já Ravache (que atuação!) está feliz com seu presente e mesmo achando o passado essencial para sermos quem somos, vive um dia de cada vez, sem pensar muito no amanhã.
Embora simples, o filme traz boas surpresas que nos deixam mais envolvidos com os personagens. Em alguns momentos procurei o motivo do título, até achei que ele apareceria mais para frente e é isso mesmo, mas sempre, como garante Caruso, remetendo o passado.
A solidão
Já em O Homem das Multidões não vemos nem futuro, nem passado, só uma solidão aterradora apresentada em um formato angustiante. Juvenal, interpretado por Paulo André, é um maquinista que, mesmo cercado por muitas pessoas nas plataformas de Belo Horizonte, é dominado pela solidão, mas não é o único a viver isso no filme, Margô, controladora de uma das estações, também toma suas doses desse sentimento.
É intrigante a forma como o filme ocorre, seu formato (como se fosse um tela de celular) nos deixa ainda mais próximos dos personagens e isso nos transmite ainda mais seus sentimentos, até o momento que pensamos em como conseguem viver assim e procuramos, como se fosse com um amigo próximo, uma solução para esse problema.
Cao Guimarães e Marcelo Gomes podem ter a certeza que têm em suas filmografias um excelente trabalho, não que eu seja um especialista no assunto, mas qualquer um que entenda o minimo de cinema e deixe de lado esse preconceito bobo com produções nacionais, que infelizmente muitos carregam, saberá que está diante de uma grande obra, simples e econômica, mas rica em toda a confusão e solidão que deseja transmitir.
A saudade
![]() |
| Marcos Caruso, Irene Ravache e Lima Duarte |
Um elenco forte (como pode ser visto na imagem acima) e uma história simples, desde que bem amarrada, é o que dá aquela sensação de tempo bem aproveitado em um final de domingo. É isso que o diretor Roberto Bomtempo nos entrega em Depois Daquele Baile.
Com brilhantes atuações de Marcos Caruso, Irene Ravache e Lima Duarte, a história nos mostra um triangulo amoroso entre amigos. Esse relacionamento traz nostalgia a alguns personagens e vemos concepções diferentes do passado de cada um, enquanto Caruso sente falta do que passou, Lima Duarte tenta esquecer e fica desconcertado sempre que o assunto entra em destaque. Já Ravache (que atuação!) está feliz com seu presente e mesmo achando o passado essencial para sermos quem somos, vive um dia de cada vez, sem pensar muito no amanhã.
Embora simples, o filme traz boas surpresas que nos deixam mais envolvidos com os personagens. Em alguns momentos procurei o motivo do título, até achei que ele apareceria mais para frente e é isso mesmo, mas sempre, como garante Caruso, remetendo o passado.
A solidão
![]() |
| Juvenal, interpretado por Paulo André |
Já em O Homem das Multidões não vemos nem futuro, nem passado, só uma solidão aterradora apresentada em um formato angustiante. Juvenal, interpretado por Paulo André, é um maquinista que, mesmo cercado por muitas pessoas nas plataformas de Belo Horizonte, é dominado pela solidão, mas não é o único a viver isso no filme, Margô, controladora de uma das estações, também toma suas doses desse sentimento.
É intrigante a forma como o filme ocorre, seu formato (como se fosse um tela de celular) nos deixa ainda mais próximos dos personagens e isso nos transmite ainda mais seus sentimentos, até o momento que pensamos em como conseguem viver assim e procuramos, como se fosse com um amigo próximo, uma solução para esse problema.
Cao Guimarães e Marcelo Gomes podem ter a certeza que têm em suas filmografias um excelente trabalho, não que eu seja um especialista no assunto, mas qualquer um que entenda o minimo de cinema e deixe de lado esse preconceito bobo com produções nacionais, que infelizmente muitos carregam, saberá que está diante de uma grande obra, simples e econômica, mas rica em toda a confusão e solidão que deseja transmitir.
terça-feira, 7 de março de 2017
Adélio, o neto de cafezeiro
Adélio Antônio da Silva
“Neto de cafezeiro não nega
café.” Foi afirmando isso que o senhor Adélio Antônio da Silva, entre uma xícara
e outra, me recebeu em sua casa e contou sua história.
Tendo cursado física e
matemática no McKenzie, pretendia entrar na Aeronáutica Brasileira para cumprir
seu tempo de alistamento e aprender como funcionavam alguns mecanismos, assim,
também seguiria os passos de seu tio, que servira alguns anos antes. “Só que
meu pai disse que se eu servisse o exército, ele me ajudaria”, isso porque em
1963 o salário de um militar era baixo, “Hoje o exército ainda paga um pouco mais,
quem melhorou isso foi o Castelo Branco”, afirmou Adélio.
A intervenção de seu pai fez
com que ele desistisse da Aeronáutica e ingressasse no Exército, o que seria
bem mais difícil se a dona Maria, moradora do bairro Vila Formosa – onde Adélio
mora até hoje – não o tivesse incentivado. Mal sabia que uma ação a contra
gosto lhe renderia tantas histórias para contar, algumas delas cômicas, outras
bem dramáticas, mas todas relatadas entre boas xícaras de café.
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
O dia em que decidi enlouquecer
Tenho sido surpreendido por pensamentos estranhos, mas sempre que paro e lhes dou mais atenção percebo que não poderia ter chegado a outro lugar. Fui tomado por uma repulsa a humanidade e contrariado pelo medo de me tornar um bastardo de família e amigos.
Por alguns dias tive mais medo ainda de ser uma forma de depressão, não sei como isso chegaria e muito menos como eu poderia lidar com o problema. Então pensei em suicídio, como eu faria. Pensei em usar o machado que guardo ansioso pelo momento em que alguém venha me intimidar, mas não daria para ser do jeito formidável como os vikings usam sua brutalidade, abandonei a ideia de suicídio e fui ler um livro.
Mas os dias continuaram tortuosos, então comecei a entrar duas horas mais cedo no trabalho e sair mais tarde, só para manter a cabeça ocupada. Mas a questão voltava sempre que eu vacilava e me obrigava a ficar alguns segundos parados, aquelas pausas relaxantes para um café passaram a ser estressantes, me deixando ainda mais revoltado.
Deixei as redes sociais de lado e mantive o contato só com aqueles com quem sou obrigado. Tive medo de me perder em meio a toda agustia e cheguei a pensar que estava enlouquecendo. Mas talvez eu tenha enlouquecido desde os meus 18, o que faria mais sentido. Por muitas vezes tentei falar, mas ninguém escutou, ou eu mesmo não soube dizer, que seja.
Então cheguei em casa, fiz a barba, tomei uma cerveja, coloquei um filme do Bergman e decidi que já tinha chagado a hora de enlouquecer.
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